Artigo: O homem que preferiu o subsolo

Por Márcio Florestan Berestinas*

Terminei Memórias do Subsolo hoje, neste domingo de Copa do Mundo, 5 de julho de 2026, dia de Brasil e Noruega. Há no ar aquela expectativa pública e ruidosa: camisas amarelas, palpites pré-jogo, a esperança nacional que sempre reaparece antes de a bola rolar. Mas, antes que o futebol pedisse passagem, Dostoiévski já me havia arrastado para outro campo — sem grama, sem arquibancada, sem hino e sem promessa de vitória. Um campo estreito, úmido e mental. Um lugar onde ninguém levanta taça, pois o adversário não está do outro lado: está dentro.

Lido ao longo deste fim de semana, o livro não oferece leveza. Pelo contrário: é áspero, febril, desconfortável. Mas há desconfortos que hipnotizam. Há obras que não conduzem o leitor pela mão; agarram-no pelo colarinho. E Dostoiévski faz exatamente isso. Desde a primeira linha, somos colocados diante de alguém que se apresenta sem cerimônias: um homem doente, rancoroso e desagradável. Ele não pede licença, não mendiga simpatia, não simula nobreza. O narrador entra em cena como quem abre uma ferida e, em vez de tratá-la, insiste em exibi-la.

Publicado em 1864, o livro é frequentemente considerado um ponto de virada na obra do autor e uma das grandes antecâmaras da literatura existencial moderna. Reduzi-lo a uma disputa de ideias, no entanto, seria empobrecê-lo. O texto não é um tratado; é uma confissão envenenada. O homem do subsolo não é um mero argumento contra o racionalismo de seu tempo, mas uma pessoa — ou melhor, a ruína de uma.

A obra divide-se em duas partes distintas. A primeira, “O subsolo”, é um monólogo filosófico e psicológico. Nela, o narrador de quarenta anos, um ex-funcionário público aposentado, vive recluso em um quarto miserável de São Petersburgo, sustentado por uma pequena herança e cercado por ressentimentos antigos. Sua extrema lucidez não o salva; o condena. A segunda parte, “A propósito da neve molhada”, recua para episódios de sua juventude. É ali que compreendemos, não por abstrações, mas por cenas concretas, a matéria de que é feito seu subsolo: orgulho ferido, desejo de reconhecimento, covardia crônica, crueldade defensiva e a absoluta incapacidade de amar.

A primeira parte recusa a linearidade. Avança aos solavancos, mimetizando uma mente que discute consigo mesma e com um auditório imaginário. O narrador afirma, nega, provoca, arrepende-se, agride o leitor e, em seguida, despreza a própria agressão. É como se Dostoiévski tivesse forjado uma forma literária capaz de reproduzir a doença da consciência. O homem do subsolo não pensa para encontrar uma saída, mas para trancar todas as portas.

Logo no início, ele confessa: respeita a medicina, mas recusa médicos; é instruído demais para ser supersticioso, mas o é; sabe que se prejudica, mas insiste no dano. Não se trata de ignorância. Ele sabe. E esse é o traço aterrador. Sua doença é a daquele que encontra na própria degradação um prazer sombrio e secreto.

Esse homem não consegue ser bom, tampouco inteiramente mau. Falha como herói e até como canalha. Há nele uma incapacidade radical de coincidir consigo mesmo. Quando afirma que “só o tolo se torna alguma coisa”, a arrogância da frase mal disfarça sua miséria. Para ele, agir é empobrecer-se; escolher é limitar-se. Por excesso de consciência, não adere a nada: nem à virtude, nem ao vício. Nele, a consciência deixou de ser luz para tornar-se ácido.

Daí nasce a oposição clássica entre o homem de ação e o de consciência hipertrofiada. O primeiro age, movido por uma lógica direta, quase mecânica. O segundo pensa, desmonta as razões da própria ira, suspeita do próprio ressentimento e, por fim, paralisa-se. O homem do subsolo perde todas as batalhas porque sequer entra nelas. Antes de levantar a mão, já redigiu mentalmente um tratado contra o golpe.

A imagem do muro de pedra sintetiza essa inércia. Para o indivíduo comum, o muro é um limite imposto pelas leis da natureza (”dois e dois são quatro”). Para o homem do subsolo, é uma humilhação pessoal. Ele não nega a aritmética, mas recusa-se a aceitar que ela se torne uma prisão moral. É aqui que o livro golpeia a promessa moderna de uma felicidade administrada pela razão (simbolizada pelo utópico Palácio de Cristal). Dostoiévski mostra que o ser humano não anseia apenas por conforto e segurança geométrica; ele deseja o capricho, a independência, o risco e a contradição. O homem deseja preservar sua faculdade de escolha, mesmo que ela implique a própria ruína. A alma humana não cabe numa planilha.

A segunda parte transforma essas ideias em carne. O narrador relembra seus vinte e quatro anos, época em que trabalhava numa repartição, evitava colegas e afundava em seu abismo particular. O que assombra é a mistura de soberba e dependência: ele despreza os outros, mas necessita desesperadamente de sua aprovação. A solidão, nele, é ferida e pedestal.

O episódio do oficial na avenida Niévski ilustra essa obsessão. Um esbarrão banal na calçada converte-se, para o narrador, numa batalha metafísica por dignidade. Ele, sentindo-se uma mosca — porém uma mosca intelectualmente superior —, planeja por dias uma reparação. Quando finalmente consegue forçar um esbarrão “em pé de igualdade”, a vitória é patética: o oficial sequer percebe. A desproporção entre o fato e a interpretação revela que a humilhação não termina quando o evento cessa; ela passa a morar dentro dele, sendo cultivada por anos.

O jantar com os antigos colegas de escola eleva essa angústia ao limite. O narrador se impõe a um grupo que detesta, mendigando reconhecimento. Quer provar sua inteligência, mas tudo conspira contra: ofende, humilha-se, sobra na sala e rasteja em busca de um olhar. A contradição é absoluta: diz-se acima deles, mas depende do olhar dos “inferiores” para atestar sua grandeza.

Depois vem Lisa.

Aqui, o livro deixa de ser uma anatomia do ressentimento para se tornar um julgamento moral do narrador. Lisa é uma jovem em situação de prostituição. Para o homem do subsolo, contudo, ela não é uma pessoa, mas uma ocasião: um palco para ele discursar, dominar e exibir superioridade.

O encontro é devastador. Ele discursa sobre amor, família e dignidade com palavras que parecem verdadeiras, mas que trazem o veneno da crueldade. Ele não a acolhe; ele a encurrala. Pinta um futuro brutal de doença e esquecimento. A eloquência torna-se uma arma. Humilhado pela vida, ele encontra alguém ainda mais vulnerável e despeja sobre ela sua sede de poder.

Mesmo assim, Lisa o escuta. Sofre e, tragicamente, enxerga naquele algoz uma promessa confusa de afeto. Ela guarda o endereço dele e, dias depois, o visita.

A chegada de Lisa é o clímax da obra. A máscara do “salvador” cai quando ela o encontra em seu quarto miserável, envergonhado diante do criado. O que ele não suporta não é o desprezo dela — pois ela não o despreza —, mas o fato de ser visto em situação de pobreza. A presença de Lisa oferece tudo o que ele teme: ternura, perdão e recomeço. O subsolo só sobrevive quando convence seu habitante de que não há nada fora dele. Lisa ameaça essa mentira.

Encurralado pelo afeto, ele a fere de forma definitiva. Confessa que queria apenas humilhá-la. O ressentido, descobre-se, não odeia apenas quem o ignora; odeia, acima de tudo, quem o compreende. A compreensão desarma sua defesa principal: a fantasia de ser o eterno incompreendido.

Lisa, porém, revela-se moralmente maior do que ele. Ao perceber que o sofrimento dele é real, ela o abraça. A jovem humilhada consola o humilhador. Quando ele, num último gesto de baixeza, tenta pagá-la pelo por ter ido ao seu encontro, transformando a compaixão em pagamento, ela deixa o dinheiro sobre a mesa e parte. Nesse silêncio, o homem do subsolo perde irreparavelmente. Ele desconhecia a grandeza possível de uma pessoa ferida.

Memórias do Subsolo não apresenta modelos a serem imitados. Apresenta um espelho deformado para que não desviemos os olhos de nossas próprias misérias. Há no narrador muito do nosso tempo: a ruminação incessante, a vaidade frágil, o prazer de ter razão sozinho e a incapacidade de aceitar a ternura sem desconfiança.

O subsolo contemporâneo pode não ser um quarto úmido em São Petersburgo. Pode estar numa tela brilhante, numa rede social, num grupo de mensagens. A observação final de Dostoiévski — de que “estamos divorciados da vida real” e preferimos a vida nos livros — soa assustadoramente atual. Hoje, preferimos a vida editada e filtrada, convertida em performance. O subsolo moderno tem conexão rápida e muitos seguidores, mas continua sendo subsolo quando nos afasta da experiência concreta do outro.

Dostoiévski compreendeu que a alma nem sempre busca a luz; às vezes, busca uma toca. E ali, organiza sua dor, cultiva o orgulho e chama seu ressentimento de lucidez.

Ao fechar o livro neste domingo de Copa, percebi o contraste: o futebol, em sua simplicidade, ainda oferece pertencimento; o homem do subsolo, ao contrário, vive na recusa de todo encontro. Não me sobra uma conclusão, mas um incômodo: quais partes de nós preferem a ferida à cura?

O drama do subsolo é que seu habitante queria ser livre, mas confundiu liberdade com recusa; queria ser amado, mas confundiu amor com domínio. Cavou um abrigo para se proteger e descobriu que construíra uma prisão. O subsolo começa quando a consciência deixa de buscar a verdade para servir de esconderijo. E termina — se é que termina — quando alguém como Lisa aparece, não para nos vencer, mas para nos ver. O problema é que sustentar esse olhar exige uma coragem que o homem do subsolo nunca teve.

*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

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