O Último Tango Ainda Não Terminou

Por Márcio Florestan Berestinas*

Aos quarenta minutos do segundo tempo, a Argentina estava sendo eliminada da Copa do Mundo.

Perdia para a Inglaterra pela margem mínima, e os ponteiros avançavam com a indiferença cruel dos relógios — máquinas frias que jamais compreenderão o desespero de uma arquibancada. Em algum canto escuro de Buenos Aires, talvez alguém já evitasse olhar para a tela da televisão. Talvez um velho esmagasse entre os dedos calejados uma medalhinha gasta de Maradona. Talvez uma criança, vestida com a camisa 10 de Messi, ainda mantivesse os olhos arregalados, simplesmente porque as crianças não aprenderam a distinguir o impossível do improvável.

A Inglaterra vencia. Mas a Argentina ainda não havia concordado em perder.

É difícil explicar a Argentina pelo seu futebol. Ou, talvez, seja humanamente impossível explicar o seu futebol sem antes compreender o país. A Albiceleste entra em campo trazendo muito mais do que onze jogadores; ela arrasta consigo as ruas, os bairros de lata, as Mães da Praça de Maio, os avós saudosos, os meninos das canchas de terra, as bandeiras desbotadas penduradas nas janelas. Leva a melancolia rasgada do tango e uma espécie de orgulho ferido que, quando provocado, transmuta-se em fúria.

Até que Enzo Fernández encontrou a bola na entrada da área. Um chute rasteiro, seco, de quem recusa o fim. A bola atravessou o gramado de Atlanta como se soubesse que dezenas de milhões de corações dependiam de sua trajetória.

Gol.

Ainda não era a vitória. Era algo, talvez, muito mais precioso: a Argentina acabava de recuperar o direito de sonhar.

O empate aos quarenta minutos atirou o jogo para os acréscimos, e tudo indicava que o sofrimento seria prolongado até a última gota de suor. A bola inglesa beijou a trave sul-americana. Por uma fração de segundo, o país inteiro deixou de respirar.

E então, ela encontrou os pés de Lionel Messi.

Messi avançou pela direita. Talvez aquele fosse um de seus últimos atos heroicos por sua seleção. Talvez os acordes do último tango estivessem soando. Mas há homens que, quando a cortina ameaça se fechar, recusam-se a sair discretamente pela porta dos fundos. Messi ergueu a cabeça e cruzou com a precisão letal de quem não busca apenas um companheiro na área: ele busca um assento definitivo na eternidade.

Lautaro Martínez emergiu do meio da muralha branca inglesa e cabeceou.

Gol.

A Argentina estava na final da Copa do Mundo.

Naquele exato instante, o Obelisco deve ter começado a convocar o seu povo. Buenos Aires deixou de ser apenas uma metrópole de pedra e asfalto para se tornar um grito puro e ininterrupto. As avenidas transbordaram em azul e branco. Desconhecidos se abraçavam nas esquinas como irmãos separados por uma vida inteira. Homens feitos choraram sem a menor sombra de vergonha. Crianças foram erguidas sobre os ombros, tocando o céu da capital. Das sacadas, choviam papéis picados, bandeiras e lágrimas.

A Argentina havia vencido à sua própria e inconfundível maneira: na bola e no coração, na técnica e nos huevos, no talento e na recusa patológica de se entregar.

Contra a Inglaterra, porém, nunca existe apenas o futebol.

Há as Malvinas — ou Falklands, dependendo do lado do oceano de onde se pronuncia a dor. Há uma guerra, seus mortos, suas trincheiras congeladas e uma memória aberta que nenhuma partida de futebol jamais poderá apagar ou reparar. Convém dizer isso em voz alta, para que o entusiasmo cego não banalize a tragédia. Mas também é verdade que os povos, na falta de justiça divina, transformam suas dores em símbolos profanos. E, quando Argentina e Inglaterra se cruzam sobre a grama, a bola de couro passa a carregar um peso gravitacional que não cabe dentro de sua própria circunferência.

Foi assim em 1986, quando Diego Maradona marcou um gol com a mão alheia e outro com os pés de um deus irrefreável. Naquele dia no Azteca, a Argentina encontrou no futebol uma forma imperfeita, controversa e absolutamente inesquecível de responder aos livros de história.

Agora, era Messi.

Não mais o Messi jovem, leve e supersônico de outrora. Mas o Messi forjado a ferro e fogo; aquele que aprendeu a carregar as derrotas, as cobranças impiedosas, as finais perdidas e a cruz insuportável de ser comparado a D10S. O homem que, um dia, pareceu condenado a ser o maior gênio que não conquistara o mundo, tornou-se o capitão absoluto de um povo que já não consegue imaginar a própria história sem ele.

Jorge Luis Borges, que tanto desconfiava do futebol e da histeria das multidões, talvez observasse tudo isso com sua ironia silenciosa. Talvez dissesse que cada argentino ao redor do Obelisco acreditava estar celebrando o mesmo gol, embora cada um comemorasse, na verdade, um gol diferente: o gol da infância perdida, o gol do pai que já se foi, o gol do filho que pulava ao seu lado, o gol das velhas derrotas que, finalmente, encontraram redenção. Porque a memória, como Borges bem sabia, não conserva os acontecimentos: ela os reinventa.

Eu sou brasileiro. Torcedor passional da Seleção Brasileira. Fui doutrinado desde o berço a considerar a Argentina nossa antítese, a rival crônica, aquela que desejamos aniquilar até em jogo de botão. Cresci venerando Pelé e aprendendo a questionar Maradona. Vibrei com a amarelinha e sangrei por ela.

Mas hoje, eu me curvei.

Curvei-me à resiliência descomunal da Argentina. À audácia de Enzo Fernández. À impulsão de Lautaro. À serenidade quase espiritual de Messi quando o mundo ameaçava desabar. Curvei-me diante de um time que corporificou tudo aquilo que qualquer torcedor suplica para ver na sua própria equipe: entrega absoluta, senso de pertencimento, orgulho, técnica, coragem e devoção à camisa.

Por noventa e tantos minutos, guardei a rivalidade na gaveta.

Torci pelas Américas. Torci pelo nosso futebol sul-americano, tantas vezes tratado com condescendência como uma lembrança romântica diante da fria riqueza e organização europeias. Torci por essa nossa mania latina de acreditar que uma partida não termina quando o árbitro apita, mas apenas quando o coração aceita o fim.

E o coração argentino se recusou a aceitar.

A Espanha os aguarda na final. Será um outro palco, uma outra história, uma nova agonia.

Mas em Atlanta, contra a Inglaterra, a Argentina já assegurou um fragmento de eternidade. Daqui a vinte, trinta ou cinquenta anos, os velhos nas praças de Buenos Aires ainda contarão exatamente onde estavam quando Enzo armou o chute, quando a bola beijou a trave, quando Messi flutuou pela direita e quando Lautaro subiu para os céus.

Contarão essa mesma história repetidas vezes. E a cada nova narrativa, o cruzamento será mais magistral, a cabeçada mais potente, o silêncio que antecedeu a rede mais ensurdecedor, e o grito de gol ainda mais estrondoso.

É exatamente assim que o futebol se converte em memória.

É assim que a memória transborda em lenda.

E é assim que um povo descobre, no apagar das luzes dos acréscimos, que o último tango ainda não terminou.

* Márcio FLorestan Berestinas é promotor de Justiça em Mato Grosso.

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