Por Márcio Florestan Berestinas*
Acordar, comer, trabalhar…
Acordar, comer, trabalhar, viajar e rolar infinitamente o feed das redes sociais. A rotina contemporânea, outrora promessa de progresso e liberdade, muitas vezes nos empurra para um ciclo fechado em que a utilidade prática ameaça se tornar o único valor reconhecido.
Pressionados pela urgência dos dias, corremos o risco de esquecer que a vida, para ser humana em sua plenitude, exige muito mais do que a mera manutenção biológica e o entretenimento fugaz.
Precisamos de literatura, de artes, de filosofia, de cinema e de pintura, não como luxos decorativos, mas como o próprio oxigênio da alma.
Esse foco excessivo na funcionalidade traz consigo uma ameaça silenciosa: a possibilidade de que a verdadeira erosão da nossa cultura não ocorra por forças externas, mas de dentro para fora.
O perigo que se desenha no horizonte é o de um distanciamento quase imperceptível daquilo que exige reflexão e elevação. Se a utilidade cega tomar definitivamente o centro do palco, a poesia corre o risco de ser vista como inútil e a filosofia, como divagação.
Ao não nutrirmos nossa vida interior, abrimos espaço para a possibilidade de ceder os postos de comando da nossa própria consciência a uma superficialidade sedutora.
Contudo, a recusa a essa mecanização sempre encontrou voz naqueles que enxergam além do pragmatismo. O poeta maranhense
Ferreira Gullar resumiu a necessidade fundamental do espírito humano em uma de suas frases mais célebres: “A arte existe porque a vida não basta”.
Apenas existir, cumprir tarefas e buscar prazeres imediatos não preenche o abismo de significado que carregamos dentro de nós.
Da mesma forma, o poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca, ao inaugurar uma biblioteca em sua cidade natal em 1931, proferiu palavras que ecoam como um lembrete à nossa era hiperconectada: “Não só de pão vive o homem.
Eu, se tivesse fome e estivesse desvalido na rua não pediria um pão, mas sim meio pão e um livro”. Lorca compreendia que a fome de beleza, de transcendência e de compreensão do mundo é tão urgente quanto a fome física.
Esse distanciamento consentido das artes e da reflexão profunda pode se revelar, no fundo, um sutil exercício de autoengano — a aceitação tácita de um horizonte mais estreito do que aquele que somos capazes de alcançar.
A pintura nos ensina a ver além do óbvio; a literatura nos permite viver mil vidas; a filosofia nos liberta da tirania das opiniões prontas.
A resistência contra essa anestesia no século XXI pede um ato silencioso de rebelião íntima: a disposição de pausar as telas, suavizar o ruído incessante e voltar a contemplar aquilo que, embora não tenha utilidade prática para o mercado, é o que preserva a nossa humanidade essencial.
*Márcio Florestan Berestinas é Promotor de Justiça.