Na pandemia, um quarto dos jovens tem sintomas de depressão

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email
Compartilhar no facebook

SÃO PAULO — Uma em cada quatro crianças e adolescentes do mundo possui sintomas clínicos de depressão, e uma em cada cinco apresenta sinais de ansiedade, indica uma pesquisa que agregou 29 estudos numa amostra de 80 mil crianças no planeta todo. O trabalho, liderado por cientistas do Canadá, sugere que a prevalência de problemas mentais dobrou nesse grupo de jovens, em relação ao período anterior ao da pandemia de Covid-19.

O resultado foi publicado ontem na revista JAMA Pediatrics, da Associação Médica Americana. Liderados pela psicóloga Sheri Madigan, da Universidade de Calgary, no Canadá, os autores do artigo afirmam que os serviços de atendimento à saúde mental infanto-juvenil precisam ser ampliados para lidar com o problema, mesmo em países mais ricos.

— Muitas pessoas no mundo, em todas as faixas etárias, estão enfrentando problemas de saúde mental, mas os estudos que olharam para esses grupos separadamente mostram que o problema tende a ser maior com três grupos: em mães e pais; em estudantes universitários; e em crianças e adolescentes, que foi o recorte que estudamos — disse a psicóloga Madigan ao GLOBO.

Atenção maior

De acordo com a pesquisadora, os números de alta prevalência em sintomas que apontam para transtornos mentais nos menores de idade devem servir de alerta para que governos e instituições deem mais atenção à questão.

Um dos motivos que levaram a essa epidemia infantojuvenil de depressão e ansiedade paralela à pandemia da Covid-19 é que, sem escola, muitas crianças tiveram de ficar em casa, privadas de interação social, de atividade física e outros fatores importantes para o desenvolvimento.

Nos casos mais problemáticos, algumas crianças ficaram até sem acesso a ensino, por não poder acompanhar aulas on-line, e em casas onde os pais não conseguiam dar atenção necessária a elas.

Quando o problema surgiu, dizem os cientistas, a maior parte dos países não estava preparada para ele.

— Cerca de 80% do atendimento de saúde mental para crianças e adolescentes no mundo é oferecido no ambiente escolar e, como muitas escolas fecharam durante a pandemia, muitos jovens ficaram sem acesso a esses serviços por muito tempo — afirmou a psicóloga Madigan.

Segundo a pesquisadora, há coisas que famílias também podem fazer para minimizar o impacto sobre os jovens, como reduzir o tempo em que os menores de idade ficam à frente de telefones celulares, TVs e computadores.

— O que os pais podem fazer, na medida do possível, é tentar restabelecer um pouco da rotina e criar um ambiente com mais previsibilidade para as crianças, com sono e alimentação regulados e tempo de tela controlado — explica a pesquisadora de Calgary.

Madigan diz que os responsáveis podem tentar compensar as atividades que os filhos perderam:

— Como as crianças ficaram em casa boa parte do ano, fizeram menos atividade extracurricular, menos atividade física e tiveram menos interações com colegas. Os pais podem tentar compensar um pouco isso — afirmou.

Dentre os 29 estudos relacionados na pesquisa de revisão da psicóloga, 16 foram conduzidos na Ásia, quatro na Europa, seis na América do Norte, dois na América Latina e um no Oriente Médio. Os pesquisadores não notaram muita diferença entre países de baixa e alta renda per capita, mas reconheceram que o estudo não foi desenhado para esse fim.

Pesquisa da Unesp

O único estudo brasileiro incluído na análise foi realizado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (SP). Liderado pela enfermeira e sanitarista Marla Garcia de Avila, professora da Faculdade de Medicina, o trabalho usou um questionário para avaliar sintomas de ansiedade em crianças de seis a 12 anos durante o auge da pandemia, em 2020.

O formulário foi respondido por 289 crianças junto de seus pais em cidades de todo o Brasil. A prevalência estimada de sintomas clínicos de transtornos de ansiedade nesse grupo foi de 19,4%, taxa similar à média mundial verificada pelo estudo de Sheri Madigan.

Essa estimativa, no entanto, cresceu ao longo da pandemia do coronavírus, conforme Avila concluiu ao enviar o questionário para mais crianças.

— Passado um ano, em março de 2021, a gente coletou novamente esses dados, ampliando a amostragem — afirmou Avila, que prosseguiu: — Tivemos 906 crianças que participaram com os pais ou responsáveis, e vimos que a parcela delas com os sintomas de ansiedade cresceu, para cerca de 25%.

No Brasil, renda e escolaridade pesaram muito na incidência infantojuvenil de ansiedade, segundo a pesquisa de Avila.

— As crianças que relataram ter pai e mãe em home office tiveram menor “score” (nota) de ansiedade, e ocorreu o contrário com pais mais jovens em condições socioeconômicas mais baixas — afirma a pesquisadora da Unesp.

Casas cheias

As altas concentrações de pessoas em uma mesma residência também pode estar ligada a casos de ansiedade, segundo a enfermeira:

— Ter muitas pessoas morando na mesma casa também foi um fator associado como causador de ansiedade nas crianças, e as crianças deficientes ou com comorbidade são as que mais sofreram — afirmou ela.

Em adolescentes, Madigan afirma que muitos sofreram pela falta de interação afetiva e social. A ausência de rituais importantes de amadurecimento, como festas de formatura e competições esportivas, causaram muita frustração nessa faixa etária.

Resta saber, diz a pesquisadora canadense, se esses problemas vão persistir depois que as restrições impostas pela pandemia deixarem de existir.

— O retorno da taxa de prevalência desses sintomas para os níveis pré-pandemia vai depender das políticas e práticas que implementamos agora, porque em alguns casos eles podem se estender por prazos maiores — diz Madigan.