Artigo: A bola, a glória e a incompreensão

Por Márcio Florestan Berestinas*

Há derrotas que acabam quando o juiz apita. Outras continuam sentadas na sala da casa da gente, de pernas cruzadas, mexendo no copo, olhando para a televisão desligada e perguntando, como quem sabe que feriu fundo: “E agora?”

A derrota do Brasil para a Noruega, por 2 a 1, com dois gols de Haaland, foi dessa segunda espécie. Não foi apenas a eliminação de uma Copa do Mundo. Foi uma visita inoportuna da melancolia nacional. Mais uma. Aquelas que entram sem bater, derrubam a autoestima do cabide e ainda pedem café.

Desde o 7 a 1 contra a Alemanha, alguma coisa se abateu sobre a Seleção Brasileira. Não falo só de esquema tático, de linha alta, de transição defensiva ou dessas expressões que o futebol moderno inventou para dar gravata ao desespero. Falo de uma sombra. Uma aura ruim. Uma espécie de quebranto coletivo. Naquele dia, o Brasil não perdeu apenas um jogo. Perdeu uma ingenuidade. E talvez a Seleção nunca mais tenha entrado em campo com a mesma alegria irresponsável de quem sabia que, em algum momento, a bola acabaria obedecendo.

Num país desigual, sofrido, exausto de suas próprias injustiças, a Seleção foi durante décadas uma licença para a felicidade. O Brasil parava. O expediente perdia a solenidade. A escola virava arquibancada. A família se reunia. O vizinho aparecia. A criança vestia uma camisa maior que o corpo. A mãe fingia que não ligava, mas ligava. O pai explicava, pela centésima vez, quem foi Pelé. Alguém dizia que o juiz estava comprado antes mesmo do hino. E, por noventa minutos, este podia gritar sem pedir desculpas.

A Seleção era uma espécie de feriado da alma.

E que alma nós tivemos.

O país de Pelé, Tostão, Gérson, Didi, Amarildo, Jairzinho, Carlos Alberto, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho. O país que ensinou ao mundo que futebol podia ser geometria, música, molejo, insolência e beleza. O país em que um drible não era apenas um recurso técnico, mas uma pequena declaração de independência. O marcador vinha de um lado, o brasileiro saía do outro, e, por um segundo, a vida parecia menos dura.

Mas o Brasil foi perdendo isso. Ou deixaram que isso nos fosse tirado.

Os meninos saem cedo demais. Mal aprendem a ser ídolos de suas ruas, de seus bairros, de seus clubes, e já são empacotados para a Europa como promessas com preço em euro. Aprendem a recompor antes de aprender a encantar. Aprendem a cumprir função antes de aprender a desobedecer com gênio. O futebol brasileiro, que sempre nasceu no improviso, foi sendo domesticado por planilhas, empresários, calendários insanos e gramados onde já não há mais criança inventando o impossível.

Perdemos o drible. Perdemos a ginga. Perdemos aquela malandragem luminosa que não era trapaça, mas inteligência popular. Aquela sabedoria de quem sabe que, às vezes, o caminho mais curto entre dois pontos é uma finta.

Contra a Noruega, faltou tudo. Faltou alma. Faltou empenho. Faltou imaginação. Faltou comando. Faltou coragem. Faltou um centroavante. Faltou Pedro. Faltou alguém para dizer: “A bola é minha, a responsabilidade é minha, o país está olhando para mim.”

E o retrato mais triste talvez tenha sido o pênalti. O Brasil tinha três atacantes em campo. Tinha Vinícius Júnior. Mas quem foi para a cobrança foi Bruno Guimarães. Nada contra Bruno, que é bom jogador. Mas pênalti de Copa do Mundo não é formulário de repartição. Não é carimbo. Não é despacho burocrático. Na Argentina, a bola procura Messi. Na França, procura Mbappé. Em Portugal, durante anos, procurou Cristiano Ronaldo. No Brasil, naquele instante, a bola deveria ter procurado Vinícius Júnior.

Mas nem a bola parece saber mais a quem obedecer.

Ancelotti chegou ao Brasil com uma biografia tão vistosa que talvez tenha cegado muita gente. Borges escreveu que “a glória é uma incompreensão e talvez a pior”. A frase, feita para outros labirintos, serve também para o futebol. Um homem pode ter vencido tudo nos grandes clubes da Europa e, ainda assim, não compreender inteiramente o que significa treinar a Seleção Brasileira, que não é apenas um time. É uma superstição nacional. É um assunto de família. É uma memória de infância. É um povo inteiro sentado diante da televisão, fingindo maturidade, mas esperando um milagre como quem espera a volta de alguém que partiu.

E Ancelotti convocou mal. Armou mal. Escolheu mal. Leu mal. Talvez tenha olhado para o Brasil como quem olha para um elenco, quando deveria olhar para uma herança. A camisa amarela não é apenas tecido esportivo. É um documento sentimental. Está assinada por mortos, vivos, meninos, avós, ruas pintadas, rádios antigos, bares lotados, cozinhas apertadas, churrascos de domingo e lágrimas que ninguém admite.

Mas a responsabilidade não cabe apenas ao treinador. A CBF tem a sua parte — e não é pequena. Trocas de comando, desorganização, improviso, falta de projeto, calendário indecente, confusão administrativa, decisões tomadas antes da reflexão. Antes mesmo que o desempenho de Ancelotti pudesse ser julgado com o mínimo de serenidade, renovou-se o contrato para a próxima Copa. Renovou-se a esperança por decreto. Como se contrato substituísse futebol. Como se papel assinado fizesse gol.

O Brasil já vinha mal. Fez uma campanha fraca nas Eliminatórias. Classificou-se sem brilho, sem autoridade, sem aquela sensação antiga de que a Copa começava de verdade quando o Brasil chegava. A derrota para a Noruega não caiu do céu. Foi o resultado de uma decadência anunciada, mas tratada com o velho remédio nacional: fingir que depois melhora. Eu também me iludi. E não me arrependo!

Não melhorou.

Perdemos para a Bélgica. Depois para a Croácia. Agora para a Noruega. A Noruega de Haaland, é verdade, um jogador extraordinário, desses que parecem fabricados numa indústria de pesadelos para zagueiros. Mas o problema não é perder para Haaland. O problema é o Brasil não parecer Brasil diante dele.

O problema é a camisa amarela entrar em campo e não produzir mais aquele arrepio nos adversários nem aquela confiança nos seus próprios torcedores. O problema é o menino brasileiro assistir ao jogo e não saber exatamente o que herdou. Antes, herdava Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo. Herdava a certeza de que o mundo podia ser driblado. Hoje herda cautela, desculpa, coletiva de imprensa, lágrimas dos jogadores ao término da partida e promessa de reformulação.

É pouco. É muito pouco.

O futebol brasileiro precisa ser revisto por inteiro. Não apenas a Seleção. O calendário. As categorias de base. A saída precoce dos jovens. A formação dos treinadores. A destruição dos campinhos. A transformação do jogador em ativo financeiro antes que ele seja personagem popular. É preciso devolver o futebol às crianças antes que o mercado leve tudo. Uma bola rolando num terreno vazio pode parecer pouca coisa para os homens importantes. Mas talvez ali esteja o que nenhuma sala refrigerada da CBF consegue fabricar: o nascimento espontâneo de um craque.

A derrota para a Noruega talvez não tenha sido, em números frios, o pior desempenho da história da Seleção em Copas. Mas há dores que não precisam de estatística. O torcedor sabe. O torcedor sente. O torcedor olha para a televisão e entende, antes dos comentaristas, que não foi apenas um jogo que se perdeu. Foi mais uma camada de encanto arrancada da nossa memória.

E isso dói porque o brasileiro precisava desse momento. Precisava comemorar. Precisava abraçar. Precisava gritar. Precisava, por alguns dias, acreditar que ainda havia uma alegria comum capaz de atravessar classes, regiões, idades e amarguras. Não era pedir demais. Era só futebol. Mas, no Brasil, “só futebol” nunca foi pouco.

Hoje, faltou alma.

Faltou a alma do jogador que chama a responsabilidade. Faltou a alma do treinador que entende o país que tem nas mãos. Faltou a alma da entidade que administra o futebol como se administrasse um cartório sem poesia. Faltou a alma dos campinhos, das ruas, dos dribles, das crianças, da alegria insolente que fazia o Brasil parecer maior do que suas tragédias.

A Seleção Brasileira não pertence à CBF. Não pertence ao treinador. Não pertence aos patrocinadores. Não pertence aos contratos. Pertence ao povo que parava para ver Pelé, que chorou com 1982, que explodiu com 1994, que sorriu com 2002, que sangrou em 2014 e que agora, mais uma vez, fica diante da televisão com a sensação de ter perdido não apenas uma Copa, mas um pedaço de si.

Contra a Noruega, o Brasil perdeu por 2 a 1.

Mas o placar verdadeiro foi mais triste.

Perdemos de novo para a nossa desordem. Para a nossa arrogância. Para a nossa falta de projeto. Para a ideia absurda de que a camisa, sozinha, ainda resolveria o jogo.

Não resolve mais.

A camisa ainda é sagrada. Mas santo nenhum faz milagre quando ninguém acende a vela direito.

E se alguém não gosta de textos como este, basta rolar a mensagem para baixo! E não custa lembrar: sempre haverá a Tonga da Mironga do Kabuletê…

 

*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

 

Programa Estação Sicredi

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